Passadas as eleições, que tiveram o resultado previsto - com Cristina Kirchner eleita no primeiro turno - lá fui eu fazer uma matéria sobre os principais desafios do novo governo. A intenção era incluir a falta de segurança, apontada como a principal preocupação dos eleitores em uma pequisa realizada no final da campanha eleitoral.
Eis que acabei sendo vítima dela durante a realização da matéria, que nunca ficou pronta. Tinha acabado de voltar de uma entrevista com um analista e como tinha esquecido minha carteira no hotel, voltei para apanhá-la. Em seguida atravessei a rua e resolvi gravar a passagem (aquele trecho em que o repórter aparece no vídeo) em frente a uma estação de metrô - o Subte, como é chamado aqui -, com a estátua de Simon Bolívar ao fundo. Depois de montar o tripé, uma mulher me chamou a atenção que alguém tinha espirrado algo na minha calça e reparei que ela estava toda suja, com um líquido branco, na parte de trás das pernas. A mulher se mostrou solidária e me deu um lencinho de papel para limpar a calça e me ajudou a limpá-la. Mas ela insistiu, dizendo que continuava suja, mais para cima, na minha bunda. Comecei a achar a insistência dela meio chata, mas fiquei olhando para trás para conferir o que ela estava falando. Ao mesmo tempo, um outro senhor me chamou a atenção e apontou para uma janela do prédio, dizendo que ele achava que o líquido que me sujou tinha sido jogado lá de cima. Com os dois me atordoando, só ouço um senhor gritando: "Um garoto roubou sua mochila!!!", apontando para a escadaria da entrada do metrô. Eu olhei para baixo do tripé e a mochila realmente não estava mais lá. Gelei e sem acreditar no que estava acontecendo, desci as escadas correndo como uma louca, berrando: "Polícia, polícia, polícia!" Desci correndo até a plataforma e pedi para pararem o trem. Revistei vagão por vagão, olhei embaixo de todos os bancos e nada. Eu não estava acreditando no que estava acontecendo, fiquei desesperada, pensando na câmera caríssima (uma Sony HDV Z1 nova) e no cristal do meu irmão que eu carregava na minha carteira.
A polícia apareceu depois de cerca de 10 minutos e quando contei a minha história, o policial disse que a única coisa que poderia fazer era dar uma olhada no metrô para ver se achava o assaltante. Se eu não encontrei os desgraçados segundos depois do assalto, o cara achava mesmo que ia me acalmar dizendo que uma revista 10 minutos depois iria funcionar???
Eu estou me sentindo uma imbecil por ter caído no golpe desta gangue de canalhas. Trouxa de confiar que pessoas na rua podem ser gentis. Enganada, desiludida e muito triste com a maldade do ser humano. Lá se foram câmera, luz, baterias, microfones, dois celulares (um eu recebi emprestado), minha agenda, e, o pior (que meus chefes não leiam isso): minha carteira com vários amuletos de coração. O Julien me disse que está muito aliviado que nada aconteceu comigo e fisicamente não aconteceu mesmo. Concordo com ele. Mas psicologicamente ainda não me recuperei do sentimento de impotência, de revolta e de ficar remoendo as minhas ações naquele 1 minuto que provocou uma reviravolta no clima da minha viagem.
Neste momento estou no aeroporto, voltando mais cedo para Londres, porque meu trabalho acabou. A viagem para Buenos Aires, que estava sendo uma grande experiência boa para mim, ficou amarga. Não vejo a hora de ir embora. Pelo menos levo na mala mais de 100 alfajores e 1kg de dulce de leche para adoçar um pouco a minha volta. Quem sabe daqui a algum tempo eu coloque este 1 minuto de um lado da balança e do outro coloque o reencontro com meus pais - que viajaram para Buenos Aires para me ver! - as minhas primeiras experiências de entradas ao vivo na TV, a companhia dos meninos da Band, conhecer a Márcia Carmo - finalmente! - meus encontros com o Paul, o tango do Café Tortoni e o sushi mais do que divino do Sushi Club de Puerto Madero. E talvez eu acabe chegando à conclusão que a viagem valeu a pena. Mas, por enquanto, estou muito chateada para isso.
Bom, e fica meu conselho para quem viajar para a Argentina: não confie em ninguém no centro de Buenos Aires. Infelizmente, pessoas honestas e gentis por natureza não se encontra em qualquer lugar por aí.
O Boiando no Nilo nasceu no Cairo, ali perto de Kit-Kat. Agora tá boiando por aí, seguindo o curso no Tamisa, Tiete, Sena, Ganges.... Com o passar dos anos, a tripulação passou de duas pessoas para quatro, com a chegada da Mila e do Oliver, que agora ajudam a remar nosso barco pelas águas calmas e turbulentas da nossa jornada.
Wednesday, 31 October 2007
Saturday, 27 October 2007
Mi Buenos Aires querida

Cá estou eu em Buenos Aires para cobrir as eleições argentinas. Se profissionalmente para mim está sendo muito legal - depois entro nos detalhes - os argentinos parecem não se importar com a votação de amanhã. Me disseram que antigamente o país não conseguia falar de outra coisa a não ser de política na época da campanha eleitoral e mais uma vez, me senti chegando atrasada numa cobertura, com a vontade de ter trabalhado em outras épocas, consideradas mais democráticas, em que a discussão política gerava debates, reações calorosas dos cidadãos defendendo seus pontos de vista e manifestações de ativistas nas ruas.
Desta vez, a mulher do presidente resolveu se candidatar e muitos analistas acham que a intenção dos Kirchner é ir jogando a peteca da presidência de um para o outro nos próximos anos. Os partidos políticos praticamente desapareceram e a oposição se fragmentou, o que beneficiou a primeira-dama, Cristina Kirchner, que está disparada nas pesquisas e deve ser eleita presidenta - como ela gosta de enfatizar - já neste domingo. Muitas pessoas com quem conversei têm um discurso parecido com o de muitos brasileiros: "É um bando de corruptos", "Nenhum deles presta", "Tudo vai continuar igual". A maioria dos meus entrevistados não iria votar em Cristina, mas todos já se conformaram com sua vitória.

Bom, mas vamos ao meu microcosmo... Diferentemente de outras coberturas e viagens, onde tinha de fazer rádio, Internet, gravar, editar e dar pirueta sozinha, desta vez estou me sentindo chique. Primeiramente, porque a competente stringer da BBC Brasil aqui em Buenos Aires está cuidando - e muito bem - da parte da Internet. E estamos dividindo as tarefas do rádio. Sobrou o vídeo e ontem sobrevivi a mais um grande desafio, do qual, confesso, estava morrendo de medo.
A Band enviou duas pessoas para testar um equipamento de link - aquelas entradas ao vivo que os repórteres fazem durante os jornais. E quem ficaria na frente da câmera? Eu! Quando soube, ainda em Londres, já comecei a passar nervoso só de pensar. Sou uma pessoa tímida e tinha certeza de que ia me enrolar na hora, justamente porque meus nervos não colaboram comigo nessas horas.
Eis que no primeiro dia de link, quarta-feira, os problemas técnicos obrigaram o cancelamento da entrada. No segundo dia parecia que não tinha como eu escapar, porque tudo estava funcionando. Só que o dia ensolarado, de 29ºC se transformou num mundo de chuva forte, de 15ºC e o link foi cancelado novamente. O Julien brincou que até dança da chuva eu fiz para me livrar do link, hahahahaha!
Bom, mas ontem não teve jeito. A previsão era de tempo bom e o link estava tinindo. E lá fui eu para a frente da câmera, tremendo, com dor no peito de tanto nervoso. "7 minutos para sua entada"... "Cinco"... "Três e meio"... "Um"... Eis que sou chamada no ar e começo a falar. Um delay inesperadono retorno (ficamos ouvindo o jornal com um fone de ouvido, mas se costuma silenciar o retorno quando começamos a falar. Os repórteres mais experientes conseguem falar se ouvindo - com segundos de atraso - sem errar, mas obviamente não me incluo neste grupo) me fez tentar arrancar o fone logo no começo da entrada, mas em seguida ele silenciou e eu desatei a falar o boletim que tinha ensaiado trilhões de vezes antes. E deu certo!!!! Depois de 10 segundos no ar, senti a adrenalina correndo pelo meu corpo e no fim de 40 segundos, quando tudo terminou, tremia feito vara verde. Mas deu tudo certo!!! Ufa!!!! Só espero que não passe o mesmo nervoso antes de toda entrada que fizer daqui para a frente!
Monday, 8 October 2007
De volta à terra firme
Estamos devendo um post há tempos, é verdade... E como as coisas mudaram nas últimas semanas! A maior novidade é que deixamos de boiar na nossa espaçosa casa-barco no ensolarado Cairo para nos encaixar num mini-apartamento na cinzenta Londres.
Pensamos em encerrar os trabalhos do nosso blog, já que a intenção era contar as curiosidades de uma região tão diferente como o Oriente Médio para amigos, parentes e mais alguns leitores que nos honraram com sua presença no nosso blog durante nossa jornada.
Porém, por enquanto, o fechamento do blog está adiado. Primeiramente, porque ainda existem coisas do Oriente que precisam ser contadas aqui. Só nestas semanas que desaparecemos subimos o Monte Sinai à noite - e vimos dezenas de estrelas cadentes e o sol nascer lá do topo - e fui para um campo de refugiados palestinos no meio do deserto na Jordânia. Além disso, temos de falar sobre os taxistas egípcios e sobre várias outras experiências que tivemos no Cairo, que não contamos de lá por causa da correria do trabalho.
Portanto, aguardem nos próximos posts uma mistura de impressões de Cairo e Londres. Aliás, a primeira grande diferença que, já no táxi, espremidos entre as nove malas que trouxemos de volta (a pergunta que não quer calar durante estas últimas duas semanas é: “Pra quê tanta roupa???...) é de como esta cidade é silenciosa se comparada ao Cairo. É impressionante!!! As pessoas ficam absolutamente empacadas num trânsito infernal (demoramos três horas para chegar do aeroporto até a casa do Rodrigo, um amigo que nos acolheu) e ninguém buzina! Todos esperam, com uma paciência impossível de se encontrar em qualquer pedacinho de alma egípcia! Tinha taxista no Cairo que buzinava a cada 5 segundos. E não é exagero! Eu ficava me perguntando por quê o cara enchia a mão na buzina toda hora se não havia carro na frente, nem pedestre atravessando a rua, nem carroça no caminho. Aí comecei a cronometrar o tempo máximo que o taxista agüentava ficar sem tocar na buzina. 5 segundos!
Na primeira noite aqui em Londres dormimos como pedras. Só pode ser graças ao silêncio. Foi impressionante não ouvir nenhuma buzina durante a noite, nenhuma felluca (os barquinhos com turistas que navegam pelo Nilo) com as musiquetas irritantemente chatas e altas no meio da madrugada. Foi mais do que impressionante. Foi calmante. Saímos do estado de constante alerta em que estávamos e relaxamos. Vou sentir falta de várias coisas do Cairo, mas foi bom voltar para um lugar que já aprendemos a chamar de casa...

Espero que, em breve, esta seja a nossa sala. Continua com cara de armazém, mas já está melhor do que o que vocês estão vendo aqui. Fotos do resto do apê, só quando conseguirmos acabar o quebra-cabeça de encaixar o mundo de tralhas que nós temos no espaço disponível!
Pensamos em encerrar os trabalhos do nosso blog, já que a intenção era contar as curiosidades de uma região tão diferente como o Oriente Médio para amigos, parentes e mais alguns leitores que nos honraram com sua presença no nosso blog durante nossa jornada.
Porém, por enquanto, o fechamento do blog está adiado. Primeiramente, porque ainda existem coisas do Oriente que precisam ser contadas aqui. Só nestas semanas que desaparecemos subimos o Monte Sinai à noite - e vimos dezenas de estrelas cadentes e o sol nascer lá do topo - e fui para um campo de refugiados palestinos no meio do deserto na Jordânia. Além disso, temos de falar sobre os taxistas egípcios e sobre várias outras experiências que tivemos no Cairo, que não contamos de lá por causa da correria do trabalho.
Portanto, aguardem nos próximos posts uma mistura de impressões de Cairo e Londres. Aliás, a primeira grande diferença que, já no táxi, espremidos entre as nove malas que trouxemos de volta (a pergunta que não quer calar durante estas últimas duas semanas é: “Pra quê tanta roupa???...) é de como esta cidade é silenciosa se comparada ao Cairo. É impressionante!!! As pessoas ficam absolutamente empacadas num trânsito infernal (demoramos três horas para chegar do aeroporto até a casa do Rodrigo, um amigo que nos acolheu) e ninguém buzina! Todos esperam, com uma paciência impossível de se encontrar em qualquer pedacinho de alma egípcia! Tinha taxista no Cairo que buzinava a cada 5 segundos. E não é exagero! Eu ficava me perguntando por quê o cara enchia a mão na buzina toda hora se não havia carro na frente, nem pedestre atravessando a rua, nem carroça no caminho. Aí comecei a cronometrar o tempo máximo que o taxista agüentava ficar sem tocar na buzina. 5 segundos!
Na primeira noite aqui em Londres dormimos como pedras. Só pode ser graças ao silêncio. Foi impressionante não ouvir nenhuma buzina durante a noite, nenhuma felluca (os barquinhos com turistas que navegam pelo Nilo) com as musiquetas irritantemente chatas e altas no meio da madrugada. Foi mais do que impressionante. Foi calmante. Saímos do estado de constante alerta em que estávamos e relaxamos. Vou sentir falta de várias coisas do Cairo, mas foi bom voltar para um lugar que já aprendemos a chamar de casa...
Espero que, em breve, esta seja a nossa sala. Continua com cara de armazém, mas já está melhor do que o que vocês estão vendo aqui. Fotos do resto do apê, só quando conseguirmos acabar o quebra-cabeça de encaixar o mundo de tralhas que nós temos no espaço disponível!
Monday, 17 September 2007
Pra falar das meninas.

O que me leva a falar do assunto é uma campanha do governo e da sociedade aqui no Egito para impedir a “mutilação genital” feminina, em outras palavras, o corte cirúrgico de parte do clitóris e dos lábios vaginais, uma puta sacanagem para falar português bem claro.
Você pode perguntar o por quê disso. Ora, assim as meninas quando crescerem não terão desejo sexual ativo e a família pode ficar mais sossegada em relação às virtudes da moça antes do casamento.
E não pense que essa cirurgia\sacanagem é uma tradição mulçumana - religião dominante aqui e que é conhecida pela repressão feminina. Desde os tempos faraônicos no Egito e pelo menos nas comunidades banhadas pelo Nilo em sua extensão por outros países esta prática é comum em famílias cristãs, mulçumanas e até em algumas outras religiões africanas. Segundo um relatório do Unicef, em 2005 97% das mulheres entre 15 e 49 anos no Egito eram “sexualmente mutiladas”.
Se esta violência contra as meninas já não fosse suficiente tem mais um pequeno detalhe. Quase que todas estas cirurgias são feitas clandestinamente por supostos médicos tribais sem os cuidados básicos de higiêne, anestesia, remédios e acompanhamento pré e pós cirurgico. Não é preciso imaginar muito para se ter uma idéia da quantidade de efeitos colaterais que estas meninas sofrem, fisica e psicologicamente. Muitas vezes inclusive causando a morte.
Em junho de 2007, após uma menina de 12 falecer durante uma mutilação, mas anos depois de muita pressão das entidades de direitos humanos e de personalidades como a primeira-dama do país, Susanne Mubarak, o governo egípcio, juntamente com autoridades islâmicas e cristãs, anunciou a proibição deste tipo de cirurgia. Os líderes religiosos inclusive afirmaram que tal ato fere profundamente os princípios tanto islâmicos como cristãos.
Ok, estamos falando de Egito, Sudão, Etiópia, ou seja, a África, e qualquer um que esteja um pouco mais antenado no mundo sabe que o controle do estado político em qualquer país do continente é extremamente frágil. Sudão, Somália e Etiópia entram e saem de guerras civis constantes e mesmo no caso de governos mais fortes, como a “ditadura democrática” do Egito, a falta de educação primária e cultura fazem com que estas tradições arcaicas e brutais se perpetuem por gerações.
Tanto que, agora no começo de agosto, outra menina,de 13 anos, faleceu no Egito. Ela foi operada, mutilada e assassinada numa clínica particular no noroeste do país. As autoridades fecharam a clínica, mas isso mostra como mesmo com as campanhas e com a lei do estado que proíbe tal procedimento, os pais continuam mutilando suas filhas e não é difícil encontrar onde fazê-lo.
Para falar destas meninas, acabei falando de religião e política, mas não é sobre isso, é sobre elas, sobre como em nosso tempo pessoas de “bem”, eu suponho, ainda praticam essa violência contra seus entes queridos.
Aqui num país mulçumano, como eu falei antes, é escancarado o quanto as mulheres estão num segundo plano na estrutura da sociedade. A roupa e o véu cobrindo o corpo, a proibição de acesso em determinados lugares e principalmente a falta de opção quando o assunto é decidir a própria vida. E tudo começa num ato que aparentemente é puro controle sexual, mas vai além, é um controle de caráter, de vontade, da vida.
Thursday, 13 September 2007
Menos poluição
E começou o Ramadã! Ficamos altamente impressionados – o Julien, ex-fumante beirou o inconformismo – de não ver um único ser nesta cidade com um cigarro na boca durante o dia! Nada de fumaça na cara dentro dos táxis, nada de egípcios fumando shishas nos cafés, nenhuma pista de uma brasa soltando nicotina e intoxicando os pulmões dos fumantes – e dos não-fumantes! A poluição sonora, embora não tenha sumido (feito impossível aqui no Cairo), diminuiu bastante devido à quantidade reduzida de carros nas ruas, especialmente após a quebra do jejum (que hoje aconteceu às 18h05, segundo o nosso porteiro). Aliás, o Saied, nosso porteiro, diz ter aproveitado a onda do Ramadã para parar de fumar de vez! Como ele mesmo disse: Insha allah! (Deus queira!)
Quanto ao meu dia de Ramadã, foi um tremendo fiasco e comprovei mais uma vez que não nasci para ser muçulmana... Fui dormir com aquela neura de não poder beber água de manhã (costumo virar um copo de água, que já fica me esperando na mesinha de cabeceira, assim que acordo), e tive pesadelos durante a noite, o que me fez acordar várias vezes para tomar o copo de gole em gole antes do pôr-do-sol. Aí acordei umas 8h com aquele gosto de travesseiro na boca e não podia mais beber água. Pois bem, ignorei também meu sagrado café-da-manhã e lá fui eu para um looongo dia de trabalho para preparar uma matéria de vídeo sobre o Ramadã. Como sou muito mão-de-vaca e os preços todos aumentaram por causa do Ramadã, fiz vários deslocamentos a pé em vez de pegar um táxi e aquele solzão batendo na minha cabeça, a mochila pesadérrima com o equipamento de vídeo, o tripé e a câmera a tiracolo me fizeram clamar por água. Como é altamente indelicado tomar qualquer líquido na frente de pessoas que realmente não podem tomar – além de ser bem complicado achar algo para beber na rua este mês – esperei até chegar em casa e, pouco mais de seis horas depois do começo do meu jejum, lá estava eu virando um garrafão de água da geladeira de casa goela abaixo...
Bom, aprendi que o sacrifício que os muçulmanos fazem neste mês não é pequeno, apesar de, pelo menos os egípcios, terem lá as suas “gambiarras” para facilitar o jejum.
Para quem não sabe, o Ramadã é celebrado no nono mês do calendário lunar, período em que se acredita que o Alcorão começou a ser revelado ao profeta Maomé. Durante 29 ou 30 dias (depende do ano), os muçulmanos têm de ficar sem comer, beber, fumar, fazer sexo e ter pensamentos impuros (ha, quero ver conferirem este último!) do nascer ao pôr-do-sol.
Depois de o sol sumir atrás do horizonte, é hora da comilança! Muitas mesas são colocadas nas ruas, calçadas e outros locais públicos, onde os pobres recebem doações de comida dos mais afortunados e generosos. Ironicamente, aqui na casa-barco, quem nos convidou para comer foi justamente a família humilde do nosso porteiro. Bunis, olhem eles aí...

Bom, mas voltemos às gambiarras. O desjejum é o começo do dia dos egípcios, que, se já costumam ter a vida noturna mais agitada que eu já vi, viram perfeitos vampiros durante o Ramadã. Depois do desjejum vêm as séries e novelas especialmente produzidas para este mês (imaginem, que maravilha, novela sem embromação?). Os filmes “inéditos” anunciados nas TVs não começam antes das 2h da madrugada. Aliás, este é o horário que todos costumam comer pela segunda vez, muitos em restaurantes. Depois da noitada, todos vão dormir para acordar lá pelas 11h ou meio-dia do dia seguinte. Aliás, as jornadas de trabalho e das escolas são reduzidas durante este mês.
Agora, façam as contas: acordar ao meio-dia e desjejuar às 18h é exatamente o tempo em que eu fiquei de jejum hoje! Então, pelo menos uma muçulmana egípcia eu poderia ser! Obviamente se no pacote não viessem tooodas as problemáticas de não haver igualdade de direitos entre os sexos nem a obrigação de se cobrir dos pés à cabeça num verão de 40ºC, entre outros detalhes...

Aqui um exemplo da comilança pós-pôr-do-sol, em Zamalek
Quanto ao meu dia de Ramadã, foi um tremendo fiasco e comprovei mais uma vez que não nasci para ser muçulmana... Fui dormir com aquela neura de não poder beber água de manhã (costumo virar um copo de água, que já fica me esperando na mesinha de cabeceira, assim que acordo), e tive pesadelos durante a noite, o que me fez acordar várias vezes para tomar o copo de gole em gole antes do pôr-do-sol. Aí acordei umas 8h com aquele gosto de travesseiro na boca e não podia mais beber água. Pois bem, ignorei também meu sagrado café-da-manhã e lá fui eu para um looongo dia de trabalho para preparar uma matéria de vídeo sobre o Ramadã. Como sou muito mão-de-vaca e os preços todos aumentaram por causa do Ramadã, fiz vários deslocamentos a pé em vez de pegar um táxi e aquele solzão batendo na minha cabeça, a mochila pesadérrima com o equipamento de vídeo, o tripé e a câmera a tiracolo me fizeram clamar por água. Como é altamente indelicado tomar qualquer líquido na frente de pessoas que realmente não podem tomar – além de ser bem complicado achar algo para beber na rua este mês – esperei até chegar em casa e, pouco mais de seis horas depois do começo do meu jejum, lá estava eu virando um garrafão de água da geladeira de casa goela abaixo...
Bom, aprendi que o sacrifício que os muçulmanos fazem neste mês não é pequeno, apesar de, pelo menos os egípcios, terem lá as suas “gambiarras” para facilitar o jejum.
Para quem não sabe, o Ramadã é celebrado no nono mês do calendário lunar, período em que se acredita que o Alcorão começou a ser revelado ao profeta Maomé. Durante 29 ou 30 dias (depende do ano), os muçulmanos têm de ficar sem comer, beber, fumar, fazer sexo e ter pensamentos impuros (ha, quero ver conferirem este último!) do nascer ao pôr-do-sol.
Depois de o sol sumir atrás do horizonte, é hora da comilança! Muitas mesas são colocadas nas ruas, calçadas e outros locais públicos, onde os pobres recebem doações de comida dos mais afortunados e generosos. Ironicamente, aqui na casa-barco, quem nos convidou para comer foi justamente a família humilde do nosso porteiro. Bunis, olhem eles aí...

Bom, mas voltemos às gambiarras. O desjejum é o começo do dia dos egípcios, que, se já costumam ter a vida noturna mais agitada que eu já vi, viram perfeitos vampiros durante o Ramadã. Depois do desjejum vêm as séries e novelas especialmente produzidas para este mês (imaginem, que maravilha, novela sem embromação?). Os filmes “inéditos” anunciados nas TVs não começam antes das 2h da madrugada. Aliás, este é o horário que todos costumam comer pela segunda vez, muitos em restaurantes. Depois da noitada, todos vão dormir para acordar lá pelas 11h ou meio-dia do dia seguinte. Aliás, as jornadas de trabalho e das escolas são reduzidas durante este mês.
Agora, façam as contas: acordar ao meio-dia e desjejuar às 18h é exatamente o tempo em que eu fiquei de jejum hoje! Então, pelo menos uma muçulmana egípcia eu poderia ser! Obviamente se no pacote não viessem tooodas as problemáticas de não haver igualdade de direitos entre os sexos nem a obrigação de se cobrir dos pés à cabeça num verão de 40ºC, entre outros detalhes...

Aqui um exemplo da comilança pós-pôr-do-sol, em Zamalek
Monday, 10 September 2007
O Natal está chegando!
Véspera de Ramadã aqui no Egito me lembra muito os dias que antecedem o Natal. Semanas antes do Natal eu já costumo me sentir diferente, com uma alegria interior inexplicável. Em Londres, as pessoas esquecem a tristeza do inverno e ficam mais gentis umas com as outras, além de tudo ser motivo para comemorar com um jantar ou algumas (no caso dos londrinos, muitas) cervejas num bar.
Voltando ao Cairo, aqui todos também parecem ansiosos com a chegada do Ramadã, que começa na próxima quinta-feira, dia 13. Só de mencionar a palavra para o nosso porteiro, os olhos dele brilharam, acompanhados de um sorriso.
Nos supermercados, em vez de panetones podem ser vistas sacolas com alguns ingredientes básicos para a cozinha (arroz, macarrão, várias sementes, como lentilhas e feijão, óleo e outros mantimentos), além de muuuuuitas nozes, frutas secas e doces típicos do mês de jejum.
Aí as "sacolas-básicas" no supermercado
Mas vamos às curiosidades, que começam justamente com o tal jejum. Existe uma verdadeira corrida aos supermercados e vendinhas de comida e a maioria dos egípcios que conheço disse que engorda durante o mês, apesar de não se poder ingerir nada desde o nascer até o pôr-do-sol. Ah... mas depois do pôr-do-sol vem a desforra: todas as famílias cozinham seus pratos favoritos, com aquelas receitas de vó que tendem a ser altamente deliciosas e calóricas, quitutes de sobremesa (tudo com toneladas de açúcar, como os egípcios adoram) e convidam parentes e amigos para a ceia fenomenal. E não é um dia de comilança, como nós temos no Natal (ou dois, no caso da família do Julien, que faz uma ceia pós-natalina com as "sobras"), são 30 dias indo e vindo de casas de amigos e parentes, convidando pessoas para sua casa, tudo regado com o que é proibido durante o dia inteiro.
Aliás, não é só proibido comer durante o dia, como também beber (água, inclusive) e fumar. Esta última proibição é a que está me deixando mais curiosa... Quero só ver como os homens-chaminés egípcios vão passar o dia sem fumar. Os taxistas, que praticamente acendem um cigarro no outro, os desocupados, que fumam para passar o tempo, os egípcios que passam horas a fio nos cafés pitando shishas... Quero só ver. Diz o dono do nosso barco - que obviamente também fuma - que nos primeiros três dias a cidade fica em clima de neurose por causa da restrição, mas depois passa.
Ah! E saliva também é considerada líquido, portanto, não pode dar beijo de língua durante o dia. Sexo, então... Só depois de o sol se pôr. O dia durante o Ramadã serve para você seguir à risca os preceitos do Islã e, portanto, valorizar mais do que nunca a sua vida espiritual. Gosto da idéia e acho que, pelo menos na quinta-feira, vou seguir o jejum para ver como é.
Estas lanternas podem ser encontradas espalhadas pela cidade inteira. Além disso, os supermercados mais chiques vendem cestas de frutas secas, nozes, copos e outros enfeites pintados com símbolos do Ramadã.
Após o início do Ramadã trago as novidades! Aliás, a ordem para os consumidores de álcool é: estoquem cerveja antes do Ramadã, porque as lojas de bebidas alcoólicas ficam fechadas durante o mês inteiro! E o conselho para os mais endinheirados (sim, aqui somos considerados assim): se preparem para ser mais generosos do que nunca, pois todas as gorjetas devem ser, no mínimo, dobradas, além das libras egípcias que você deve distribuir sem pedir nada em troca.
Tuesday, 4 September 2007
Domingo em Alex
Voltando ao nosso fim-de-semana de Alexandria, depois de esgotar o turismo na cidade, resolvemos ir até Rosetta, onde foi descoberta a famosa pedra que forneceu o código para decifrar os hieróglifos (como grande parte das riquezas encontradas no Egito, a pedra de Rosetta se encontra atualmente no British Museum, em Londres, e o Museu do Cairo tem de se contentar com uma foto reproduzindo a dita cuja). Além disso, é ali que o rio Nilo deságua no mar e achamos que iria ser uma boa oportunidade para finalmente fazer um passeio de barco pelo Nilo (já que há meses estamos estacionados no mesmo lugar do rio!).
Depois de mais de uma hora torcendo para chegarmos a Rosetta inteiros - já que o taxista desconhecia leis de trânsito como limite de velocidade e ultrapassagens em certos trechos da estrada -, sentada no banco traseiro de um carro pré-histórico, sem cinto, passeamos pelo microvilarejo e, apesar de ter sido um passeio simples, sem grandes atrações, foi uma supresa agradável ver mesquitas muito antigas e humildes e conversar com pessoas sorridentes e bem-humoradas na rua.
O tal passeio no Nilo foi uma decepção. Foram 15 minutos até uma mesquita, uma visita rápida, porém interessante, e 15 minutos de volta. Nada de ir até a boca do Nilo. Só de desforra, resolvemos ir até lá com o nosso taxista. Não existe nada por perto, apenas areia, terra e alguns postos de checagem da polícia...

Aqui a mesquita: simples, mas num lugar privilegiado e bucólico, na beira do Nilo


Algumas crianças em uma mesquita em Rosetta, com o Alcorão em punho

De volta a Alex, nada como relaxar numa praia no fim da tarde, já que o nosso trem de volta ao Cairo era apenas à noite. Depois de ver alguns banhistas no dia anterior, eu já tinha desistido da idéia de usar biquíni e já tinha me preparado psicologicamente para entrar no mar de short e camiseta. Mas não ficamos na praia por mais de cinco minutos. A pequena faixa de areia estava abarrotada de gente - todas as mulheres de lenço na cabeça, calça e camiseta de manga comprida, o sol estava escaldante, não tinha um lugar para comprar ao menos uma água e só de pisarmos no local metade da praia olhou para nós. Antes de falar mal do Boqueirão, Guarujá ou de qualquer outra porção de areia considerada menos atraente na costa brasileira, dêem uma olhada nisto:


A volta ao Cairo foi um pouco tumultuada. Depois de uma confusão do vendedor de passagens no dia anterior, que nos fez perder o trem das 19h30 e chegar uma hora e meia antes do trem das 21h30 para tentar conseguir um assento (na segunda classe, of course), o trem finalmente chegou. Na plataforma, dezenas e dezenas de pessoas se empurrando para entrar no trem, todos com milhares de malas, caixas de papelão e uma criançada ligada no 220. Quando conseguimos vencer a multidão e entrar no trem, onde estava o ar-condicionado? E, mais importante, a luz???? Lá estavam todos com a maravilha da tecnologia que é o celular, na maior escuridão, iluminando os números das poltronas com a telinha dos aparelhos. Mas o pesadelo durou pouco. Pelo menos este. A luz voltou, o ar-condicionado começou a funcionar e o trem... não saiu. Durante quase duas horas ficamos parados na estação de Alexandria esperando o início da viagem de volta, ao som de sete crianças rebeldes que nos acompanhavam no vagão...

O estado do "vagão-restaurante" antes da saída. Durante a viagem, o lugar virou o fumódromo da galera, que bebericava muito chá e café.
Depois de mais de uma hora torcendo para chegarmos a Rosetta inteiros - já que o taxista desconhecia leis de trânsito como limite de velocidade e ultrapassagens em certos trechos da estrada -, sentada no banco traseiro de um carro pré-histórico, sem cinto, passeamos pelo microvilarejo e, apesar de ter sido um passeio simples, sem grandes atrações, foi uma supresa agradável ver mesquitas muito antigas e humildes e conversar com pessoas sorridentes e bem-humoradas na rua.
O tal passeio no Nilo foi uma decepção. Foram 15 minutos até uma mesquita, uma visita rápida, porém interessante, e 15 minutos de volta. Nada de ir até a boca do Nilo. Só de desforra, resolvemos ir até lá com o nosso taxista. Não existe nada por perto, apenas areia, terra e alguns postos de checagem da polícia...
Aqui a mesquita: simples, mas num lugar privilegiado e bucólico, na beira do Nilo
Algumas crianças em uma mesquita em Rosetta, com o Alcorão em punho
De volta a Alex, nada como relaxar numa praia no fim da tarde, já que o nosso trem de volta ao Cairo era apenas à noite. Depois de ver alguns banhistas no dia anterior, eu já tinha desistido da idéia de usar biquíni e já tinha me preparado psicologicamente para entrar no mar de short e camiseta. Mas não ficamos na praia por mais de cinco minutos. A pequena faixa de areia estava abarrotada de gente - todas as mulheres de lenço na cabeça, calça e camiseta de manga comprida, o sol estava escaldante, não tinha um lugar para comprar ao menos uma água e só de pisarmos no local metade da praia olhou para nós. Antes de falar mal do Boqueirão, Guarujá ou de qualquer outra porção de areia considerada menos atraente na costa brasileira, dêem uma olhada nisto:
A volta ao Cairo foi um pouco tumultuada. Depois de uma confusão do vendedor de passagens no dia anterior, que nos fez perder o trem das 19h30 e chegar uma hora e meia antes do trem das 21h30 para tentar conseguir um assento (na segunda classe, of course), o trem finalmente chegou. Na plataforma, dezenas e dezenas de pessoas se empurrando para entrar no trem, todos com milhares de malas, caixas de papelão e uma criançada ligada no 220. Quando conseguimos vencer a multidão e entrar no trem, onde estava o ar-condicionado? E, mais importante, a luz???? Lá estavam todos com a maravilha da tecnologia que é o celular, na maior escuridão, iluminando os números das poltronas com a telinha dos aparelhos. Mas o pesadelo durou pouco. Pelo menos este. A luz voltou, o ar-condicionado começou a funcionar e o trem... não saiu. Durante quase duas horas ficamos parados na estação de Alexandria esperando o início da viagem de volta, ao som de sete crianças rebeldes que nos acompanhavam no vagão...
O estado do "vagão-restaurante" antes da saída. Durante a viagem, o lugar virou o fumódromo da galera, que bebericava muito chá e café.
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